Fechei a porta.
Era ele e eu, agora.
Era eu e ele.
E, evidentemente, os utensílios de cozinha do talhante mais bem sucedido da região.
Era noite, mas não estava escuro. O luar entrava pela janela e banhava o corpo estendido na mesa.
Era eu e ele, ele e eu, agora.
Ele dormia e nunca havia de chegar a acordar.
A menos que eu cometesse algum erro.
Numa terra pacata
como esta, ninguém tinha
larga margem para cometer
grandes crimes.
Até aquele ponto,
pelo menos.
Por isso, ele não merecia a tortura de estar acordado e lúcido quando lhe esventrassem a vida.
O luar era lindo, a neve, lá fora, branca, o corpo, lá dentro, branco, como que a palidez da morte já se tivesse debruçado sobre ele.
Era noite e estava frio.
Era eu e ele, agora.
Fechei os olhos.
Estava pronto.
Peguei no que a polícia, mais tarde, classificaria como arma branca. Bastante apropriado à situação. Todo aquele cenário era branco, toda a morte seria branca, o asseio seria brancura, tudo puro e branco.
Diante de mim, a lâmina reluzente.
Na minha mão, ao meu comando.
Pronta.
Diante de mim, os olhos fechados que não mais se iriam abrir. Diante de mim, o corpo pálido, mas ainda vivo, ainda quente.
Na minha pele, o cabo frio, frio como tudo à minha volta, como que ansiando, como que implorando para que eu cessasse aquela desnecessária fonte de calor.
Apesar de ser a quarta morte, apesar de nunca antes ter hesitado, apesar de nunca antes ter vacilado,
parei,
no instante que precedia o contacto fatal,
parei,
porque sentia algo
a percorrer-me as entranhas
de cima a baixo,
parei e,
pela primeira vez
na minha vida,
senti,
senti com toda a intensidade
e deixei-me saborear
aquele momento.
Por fim, incapaz de me conter, o primeiro corte, cuidadosamente executado.
Uma onda de frio, um arrepio pela espinha, as minhas mãos deixaram-se tremer.
Não tive dúvidas do quão artístico era aquele momento.
No lugar onde a lâmina encontrara a carne, espelhado contra branco, um fio. mínimo. cor de sangue.
Os meus joelhos falharam e deixei-me cair. Deixei-me cair, incapaz de mover os olhos daquele quadro.
Deixei-me a contemplar o sublime contraste.
Uma gota, como uma lágrima, deixando um leve traço atrás de si.
A minha respiração acelerava.
Sentia uma dor no peito, mas algo me dizia que era uma dor boa.
Sorri e fechei os olhos.
Quando os reabri, recolhi aquela primogénita gota entre dois pedaços de vidro.
Soube, nessa noite,
que aquela fora a verdadeira
primeira vez.
Nunca antes houvera qualquer toque de personalidade. E fora sempre com um intermédio, um carro, um líquido, uma corda.
Agora, havia tanto mais.
Havia organização, ordem.
Havia frio, havia branco.
Havia sangue.
Havia calma.
Noutras ocasiões, sentira a Morte comigo, dando uma mãozinha.
Não hoje.
Hoje, havia eu. E ele.
Enterrei a lâmina noutro ponto.
Mais tremores e arrepios.
E um sorriso.
Tinha, por fim, encontrado-me.
Eis eu, verdadeiro.