Oh, calor!
Sempre tão odioso e manipulador, sempre tão inconveniente. Como nos faz perder a cabeça, toldando-nos o pensamento
Que resta? O instinto infantil. Os desígnios da sobrevivência.
Oh, o calor.
Tem sempre este efeito sobre as pessoas.
A cereja em cima do bolo de ódio e de chacina em que a minha bela vila se tornara.
Uma cereja bastante vermelha.
Quando julgava que não mais me podiam surpreender, surpreendiam-me. Nunca os meus conterrâneos me desiludiram.
De certo modo, nunca perderam totalmente o juízo, pois neles havia alguma centelha de lucidez que lhes permitia ver que era eu quem ajudava a fazer desaparecer a pilha à porta de casa. Nunca deixavam de trazer os corpos e jamais me tentaram atacar.
De resto, o que se via nas ruas era indescritível e medonho.
Não era difícil assistir a um assassínio ao vivo – a frequência com que me deparava com tal espectáculo ultrapassava largamente a frequência com que por ali passavam autocarros – e originalidade era algo que não faltava.
Com o aumento da temperatura, porém, chegada com o despontar da Primavera e o acordar do Verão, os crimes sofisticados foram cada vez diminuindo mais, dando lugar a obscenidades mais rudimentares.
Cheguei a ter cadáveres devorados.
Sim.
Devorados.
Abocanhados,
mordidos,
rasgados, não
só apunhalados,
esventrados,
estripados.
Acreditem, marcas
de dentes é
algo difícil de
esquecer.
Principalmente, quando não conseguia deixar de pensar que “mesmo que faltar o dinheiro, a comida à mesa está garantida.”


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