segunda-feira, 15 de março de 2010

Era de um redespertar

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As buzinas, as bandeiras, as músicas, os megafones, o tempo de antena. Lembram a auto-proclamação de um circo de terceira categoria.
Cartazes, autocolantes, grandes placards nas ruas, impedindo-nos de olhar para a paisagem.
Os sorrisos, tão falsos quanto as suas palavras.
Tudo tão irritante! Não é de admirar que tenha perdido o auto-controlo.
Portei-me tão bem até aqui. Só eu sei o quão doloroso foi concentrar-me, meramente, nas minhas necessidades materiais, a fim de não matar mais ninguém. Cada dia era mais difícil, tranquei-me e andei às voltas, a bater nas paredes. Porém, consegui controlar o impulso.
E de que modo me haviam recompensado? Com aquele colossal insulto à sanidade mental de cada um.

Claro que respondi à altura.

Provavelmente, até souberam. Foi moda nos noticiários, por algum tempo.
De um tal candidato que matou a tiro o marido da candidata do outro partido.

Como é óbvio, não dei tiro algum.
Eu silencio, não faço ainda mais barulho. Nem gosto de mortes violentas, de explosões de pessoas, ainda para mais deixando lixo no interior do corpo.
Gosto de asseio e de organização.
E de sair impune.

Ninguém teria dúvidas de que o tiro fora fatal.
Ninguém perderia uma segunda vez à procura de vestígios de veneno, que, pela hora em que o corpo fosse descoberto, já teria desaparecido.
Tudo planeado à perfeição, de modo a que até o suspeito principal acreditava ter sido o assassino.

Se continuarem comigo, contar-vos-ei os detalhes.

domingo, 14 de março de 2010

Despertando

1
Depois de tanto tempo repousando numa cova acabada de abrir, o Coveiro ergue-se e saúda-nos com uma vénia. Tem passado demasiado da sua vida num buraco, eis que regressa, em todo o seu esplendor. Aguardamos por notícias, amanhã.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Fim da Primeira Parte

0
Um dia, o inevitável deu-se.
Erros de cálculos: esqueci-me de considerar uma variável.
Se a família e os amigos do morto estão mortos, quem pagará o funeral?
De que vale matar pessoas para manter o negócio, se não me sobram clientes?
Foi quando me apercebi que aquilo contra o que lutara, o que a tanto custo tentara evitar, tinha, por fim, chegado, apenas para reforçar a sua inevitabilidade.
Era tempo de partir.

Atrás de mim, deixava um rasto obsceno de destruição e violência. Não julguem, porém, que me sinto responsável. Fui eu que acendi o fósforo, claro. Mas também a floresta se fez de madeira.

O Verão não é bonito

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Oh, calor!
Sempre tão odioso e manipulador, sempre tão inconveniente. Como nos faz perder a cabeça, toldando-nos o pensamento
Que resta? O instinto infantil. Os desígnios da sobrevivência.
Oh, o calor.
Tem sempre este efeito sobre as pessoas.
A cereja em cima do bolo de ódio e de chacina em que a minha bela vila se tornara.
Uma cereja bastante vermelha.
Quando julgava que não mais me podiam surpreender, surpreendiam-me. Nunca os meus conterrâneos me desiludiram.
De certo modo, nunca perderam totalmente o juízo, pois neles havia alguma centelha de lucidez que lhes permitia ver que era eu quem ajudava a fazer desaparecer a pilha à porta de casa. Nunca deixavam de trazer os corpos e jamais me tentaram atacar.
De resto, o que se via nas ruas era indescritível e medonho.
Não era difícil assistir a um assassínio ao vivo – a frequência com que me deparava com tal espectáculo ultrapassava largamente a frequência com que por ali passavam autocarros – e originalidade era algo que não faltava.
Com o aumento da temperatura, porém, chegada com o despontar da Primavera e o acordar do Verão, os crimes sofisticados foram cada vez diminuindo mais, dando lugar a obscenidades mais rudimentares.
Cheguei a ter cadáveres devorados.

Sim.
Devorados.
Abocanhados,
mordidos,
rasgados, não
só apunhalados,
esventrados,
estripados.
Acreditem, marcas
de dentes é
algo difícil de
esquecer.

Principalmente, quando não conseguia deixar de pensar que “mesmo que faltar o dinheiro, a comida à mesa está garantida.”

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Não fui eu *-*

0
A tendência piorou.
Parecia uma corrida de que ninguém falava mas todos estavam cientes da sua existência e mais: todos queriam participar.

Era espantoso, estavam ávidos de serem livres e despreocupados como que crianças, esquecer as responsabilidades, as normas, guiarem-se por si mesmos à procura do correcto, moralmente correcto, tão distinto do que o que lhes haviam imposto.

Os telefonemas cessaram.
No princípio, dignavam-se a falar comigo, directamente, para pedir a realização do enterro.

Estive uma semana de febre, mas aquele novo ritmo continuou a depositar corpos às minhas portas, crimes que eu não cometera. corpos amontoados, já ninguém tinha a decência de os arranjar primeiro, a polícia já tinha esquecido, desistido.
O cheiro seria insuportável para quem não estivesse habituado - eu estava, vejam só, e, ainda assim, me incomodava, ligeiramente.
Porém, a fúria dos habitantes parecia crescer ainda mais, incitada por aquele forte fedor a morte e bichos, varejeiras e larvas, como se o primordial, o animalesco de cada um apagasse toda a réstia de racionalidade e de consciência.

Chegaram a passear-se nus.

Acorda o monstro

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Algo parece rugir nas entranhas deste fim do mundo.

Uma mudança está a dar-se, como que a lagarta já estivesse no casulo.

A pequena vila parece acordar, sedenta.
Sedenta de sangue, sedenta de vingança.

Assaltos, janelas partidas, incêndios.

"Acidentes."

Parecem querer fazer o meu novo trabalho por mim.

Sabem que mais?
Descobri que não gosto
de competição.

Da necessidade material já nada resta

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Com o passar do tempo, começou a tornar-se num vício. Era de uma beleza extrema levar as almas ao outro mundo.
Ver o fechar dos olhos. «E agora estás... e agora já não.» Sentir o terror de quando os esfaqueava.

Só os deixava acordados,
a sentir, quando o mereciam.
Eu não sou um bicho
sem escrúpulos.

Deitava-me, sentindo-me realizado, passava o serviço fúnebre ansiando o anoitecer.
Deixei a indistinção entre um vivo e um morto. Sim, agora parecia-me tudo tão composto, todas as fases da última passagem...
Esfaqueá-los era o extremo de toda a actividade, era o êxtase, a carne sucumbindo perante a lâmina, o sangue, escorrendo, a calma, a magia, a adrenalina, finalmente, alguma emoção desde que enterro pessoas.

Era tão gratificante,
senti-me, por fim,
vingado dos homens
de bata branca, vingando
a própria morte.

Tanato-maníaco: um vício em desenvolvimento

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Resolvi entregar-me uma última vez ao anterior pretexto.

Era só um.

Que mal poderia fazer?


Talvez seja assim que se começa...
Só um.
Depois, só mais um.
Só um não faz mal.


Mas o mais um começou a tornar-se simplesmente demasiado.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Bye, Dexter

0
Chegava o quinto, o último da saga "O filho de talhante é fanático por Dexter".

O último capítulo de uma fase de delírio, de profunda empatia comigo mesmo, de paz interior, a primeira vez que vejo algum sentido na minha existência.

E eu, melancólico, hesitando em apagar a última vida.

A última vez.
Por que tem de chegar uma última vez?

Desta vez doía mais que quando abriu o centro dos doutores de batas brancas.

Porque era pessoal, era sentido.
Eu estava apaixonado por aqueles momentos fora de série das noites escuras e vermelhas.

Isso era muito maior que qualquer bem material, que qualquer estúpido emprego, que qualquer absurdo e inútil cêntimo.

Aquele era eu.
Eu verdadeiro.
Eu inteiro.
Eu único.

Tinha demorado tanto tempo a encontrar-me.
Iria perder-me tão cedo?


Com um suspiro, enterrei a faca na garganta do corpo pálido, vendo o sangue calmo, escorrendo fora.

Quarto-escuro-sendo-escuro-em-tons-de-vermelho

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Mais dois foram arrumados do mesmo modo.

Aquela beleza extrema e compensadora.

As sensações.


O quarto que matei em nome do filho do talhante, porém, teve um tratamento um pouco diferente.

Achei a sua história não nos registos policiais mas num lugar bem mais simples e com tantos mais detalhes, longe de burocracias e de provas válidas em tribunal.

Rumores que o vento traz ao parapeito da minha janela.
São como cheiros de novas oportunidades...

Um novo criminoso
Uma nova morte.


Estava bem acordado.
Viu os meus olhos e o meu sorriso.

E viu mais nada.




Fui bastante mauzinho, fi-lo sofrer o mais que pude. De segundo para segundo uma nova ideia surgia, uma nova ideia antes do golpe final.
Ficou um lindo quadro em tons delicados de vermelho.
O sangue era muito espesso, escorria lentamente.

Jamais outro homem nesta terra se atreverá a bater na esposa e nos miúdos.

Talvez seja uma boa altura para começar a dar pistas à polícia para que os enterros destas pobres vítimas possam ser realizados antes que se esgote o pouco que me resta nos bolsos.

Até já :)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Genuína Primeira Vez

0
Fechei a porta.
Era ele e eu, agora.

Era eu e ele.

E, evidentemente, os utensílios de cozinha do talhante mais bem sucedido da região.
Era noite, mas não estava escuro. O luar entrava pela janela e banhava o corpo estendido na mesa.
Era eu e ele, ele e eu, agora.
Ele dormia e nunca havia de chegar a acordar.
A menos que eu cometesse algum erro.

Numa terra pacata
como esta, ninguém tinha
larga margem para cometer
grandes crimes.
Até aquele ponto,
pelo menos.

Por isso, ele não merecia a tortura de estar acordado e lúcido quando lhe esventrassem a vida.
O luar era lindo, a neve, lá fora, branca, o corpo, lá dentro, branco, como que a palidez da morte já se tivesse debruçado sobre ele.
Era noite e estava frio.
Era eu e ele, agora.

Fechei os olhos.

Estava pronto.

Peguei no que a polícia, mais tarde, classificaria como arma branca. Bastante apropriado à situação. Todo aquele cenário era branco, toda a morte seria branca, o asseio seria brancura, tudo puro e branco.
Diante de mim, a lâmina reluzente.
Na minha mão, ao meu comando.
Pronta.

Diante de mim, os olhos fechados que não mais se iriam abrir. Diante de mim, o corpo pálido, mas ainda vivo, ainda quente.
Na minha pele, o cabo frio, frio como tudo à minha volta, como que ansiando, como que implorando para que eu cessasse aquela desnecessária fonte de calor.
Apesar de ser a quarta morte, apesar de nunca antes ter hesitado, apesar de nunca antes ter vacilado,
parei,
no instante que precedia o contacto fatal,
parei,
porque sentia algo
a percorrer-me as entranhas
de cima a baixo,
parei e,
pela primeira vez
na minha vida,
senti,
senti com toda a intensidade
e deixei-me saborear
aquele momento.

Por fim, incapaz de me conter, o primeiro corte, cuidadosamente executado.
Uma onda de frio, um arrepio pela espinha, as minhas mãos deixaram-se tremer.
Não tive dúvidas do quão artístico era aquele momento.

No lugar onde a lâmina encontrara a carne, espelhado contra branco, um fio. mínimo. cor de sangue.
Os meus joelhos falharam e deixei-me cair. Deixei-me cair, incapaz de mover os olhos daquele quadro.
Deixei-me a contemplar o sublime contraste.
Uma gota, como uma lágrima, deixando um leve traço atrás de si.
A minha respiração acelerava.
Sentia uma dor no peito, mas algo me dizia que era uma dor boa.
Sorri e fechei os olhos.
Quando os reabri, recolhi aquela primogénita gota entre dois pedaços de vidro.

Soube, nessa noite,
que aquela fora a verdadeira
primeira vez.

Nunca antes houvera qualquer toque de personalidade. E fora sempre com um intermédio, um carro, um líquido, uma corda.
Agora, havia tanto mais.
Havia organização, ordem.
Havia frio, havia branco.
Havia sangue.
Havia calma.
Noutras ocasiões, sentira a Morte comigo, dando uma mãozinha.
Não hoje.
Hoje, havia eu. E ele.
Enterrei a lâmina noutro ponto.
Mais tremores e arrepios.
E um sorriso.
Tinha, por fim, encontrado-me.
Eis eu, verdadeiro.

Arquitectando os alicerces do plano perfeito

0
Em sonhos, via-os, perfeitos, à minha frente. Os traços de um novo plano.
Tencionava fazer aquilo que sempre todos dizem que irá acontecer com as ideias que aparecem nestes livros. Iria tornar, meticulosamente, o fanatismo de Martim Gavina numa realidade. Durante algum tempo, não muito, apenas o suficiente para sobreviver outros dois meses, seria o Dexter que assombraria os cidadãos. Seria ligeiramente mais descuidado, os cadáveres teriam de ser encontrados, para que eu tivesse o que enterrar. De resto, havia de imitar todos os passos do meu novo serial killer preferido.

Agora que pensava nisso,
eu mesmo começava a poder
fazer parte daquela categoria.

Devolvi os livros à biblioteca municipal da povoação vizinha (não quis que me vissem com eles aqui, atrair as atenções está fora de questão) quando achei já estar pronto para prescindir deles. A verdade é que, entre ele e eu, existia um número incontável de semelhanças, ambos cuidadosos, necessitando do assassínio para a nossa sobrevivência, lidando com a morte diariamente no nosso local de emprego, dando pouco nas vistas, não foi nada difícil entrar na pele do herói do filho do talhante.
Precisava de um local.
Precisava de vítimas. Criminosos locais? Assalto aos registos da polícia.
Precisava de utensílios de cozinha. Estão a brincar? Essa era a mais fácil.
Precisava de rolos de fita cola. Rolos e rolos dela.

Era como planear
uma visita de estudo.
Senti, pela primeira vez,
em muitos anos, aquela
antecipação da véspera
de Natal. Senti-me tão
infantil.

Trabalhei neste caso quatro dias. Chegado o final, tinha três potenciais vítimas em mente.
Com pedaços de caixão fizera a caixa para as lâminas de sangue.

Perfeitamente adequado.

Uma gota de sangue repousaria entre dois rectângulos de vidro, representando a vida roubada ao seu anterior hospedeiro, ou antes, a morte gloriosa e artisticamente recebida. Seria uma oportunidade única para o primeiro contemplado com a minha feliz tentativa de imitação.

Tencionava ser
fiel ao original.
Tencionava fazê-lo
como deve ser.
Eu caso de dúvida,
seguiria os métodos
do personagem do livro,
ao invés do da série televisiva.

Estava pronto.
Estou pronto.
Amanhã, quando o Sol levantar, o novo dia há-de receber-me de braços abertos.
Amanhã, serei o acarinhado defensor, o querido assassíno.
Relaxem, serão apenas cinco vítimas.
Acho eu.
(Achava eu.)

domingo, 27 de setembro de 2009

Conhecendo Dexter

0
Dexter é a encantadora história de alguém que, tal como eu, vive de braço dado com a morte. E, cereja em cima do bolo, Martim Gavina é fanático por ela.

Vocês sabem como são
as pessoas de vilas pequenas
que quase poderiam
ser consideradas aldeias.

Vocês sabem, tão, tão
implicativas com pequenas
coisas, tão preconceituosas,
tão pseudo-escandalizadas,
em êxtase com um
pequeno mexerico.

Vocês sabem, julgam que
sabem tudo, sobre todos,
julgando-os com o que
se diz por aí.

Qualquer um que saia da linha é estranho, é alguém em quem não se pode confiar.

Não é curioso
o modo como as pessoas
se enganam? É tão mais
fácil desconfiar do filho
do talhante, criado no seio
de facas e sangue e carne
cortada, fatiada, que do
simples e calado
coveiro, tão ligado
à igreja, tão perto
de Deus.

Virei a última página do último livro. Na verdade, senti uma dada empatia pelo filho do talhante. Era difícil não gostar de uma história assim. Talvez até mesmo as próprias senhoras cuscas se tornassem fanáticas, se lhe dessem uma oportunidade.
Felizmente para mim, isso não aconteceu.
Aquela oportunidade era minha.
Esta oportunidade é minha.
Fanatismo por um assassino em série aliado à desconfiança preconceituosa baseada em mexericos. Os ingredientes perfeitos.
Perfeitos para, mais uma vez, sair impune.
Perfeitos para a fingida racionalidade e civilização se desmoronarem.
Os ingredientes perfeitos na dosagem certa.
Só faltava eu.

sábado, 26 de setembro de 2009

~ ESTE POST NÃO TERÁ NOME A MENOS QUE ARRANJE UM MELHOR ~

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Manhã fresca, como todas as manhãs de Janeiro devem ser.

Levantei-me e fui dar uma volta.

A neve era fresca, no chão.
Faziam 34 anos que não nevava.

Um bom presságio, não concordam?

Passeava-me pelas ruas, brancas, puras, como a morte - sim, como a morte - a vida é que é suja e depois ainda deixa aqueles corpos todos para trás-, observando as gentes passando por mim
Como eram calmas,
como me cumprimentavam sem me ver
sem verem o brilho dos meus olhos.

Nenhum de nós poderia
ser capaz de prever a
mudança que se iria dar,
muito menos eu.

Afinal, fui eu que fui
surpreso, não eles.
Eles limitaram-se a agir.

Duas senhoras conversam,
isto é,
murmuram.

Interessante.

- Parece que o filho do talhante
anda todo entusiasmado com um
daqueles filmes que nunca mais
acabam, e olha que não é um
filme nada bonito, nada bonito mesmo.
- Então, não há-de ser nada, sobre
que é o filme, afinal?
- Olha, não sei quem inventou
história tão horrenda, ao
que parece é de um assassino
que trabalha na polícia de dia
e que mata pessoas à noite
e o que é pior é que ele
é o herói da história.
- Que horror! Como é que alguém pode
gostar de uma coisa dessas?
-Não sei que te diga, este
mundo está todo às avessas.

Aqui estava ela.
O murmúrio da sorte, sussurrado ao meu ouvido.
Podia ser mais uma oportunidade, mas tinha de saber mais.

Tinha de saber mais, mas no fundo, já sabia que seria mais um pretexto para poder ganhar uns trocos.

Olhei para as pegadas na neve
e pareciam-me uma cara sorridente.

Um bom presságio,
não concordam?

Novo Despertar (mais verdadeiro)

0
Não posso negar que toda a minha vida tenho feito suposições acerca de como teria continuado se não tivesse surgido a segunda oportunidade.
Pergunto-me: como seria a minha terra, hoje?

Porém, esses momentos de dúvidas não duram mais que segundos.

O passado troça de mim,
olhando-me do seu poleiro,
sorrindo.

É imutável e irreversível.

E não poderia ter acontecido de outra maneira.
A oportunidade deu-se, agarrei-a.

Sorrio-lhe, também.

Algo tão pequeno
com tais consequências
(como me deixou surpreso)

Nos meus sonhos, revejo o que aconteceu naquele ano.
Começou em Janeiro, quando o dinheiro dos funerais dos Gravato começou a escassear.
Foi um despertar.

Finalmente pronto.

Abro as portas a essas memórias.
Acompanham-me?

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Despertar

0
Perdoem-me, hoje não.
Hoje não, hoje descanso, hoje repouso.

O despertar será.
Quando for,
talvez quarta-feira.

Boas noites.

domingo, 20 de setembro de 2009

Fechar os olhos

0
Adormecer.

Finalmente, depois de meses, três meses de preocupação, posso adormecer com a garantia de que amanhã não terei de sair e de tentar a minha sorte noutro lugar.

Por fim, descanso.

E é absolutamente fantástico que ninguém tenha comentado como os níveis de criminalidade estão a aumentar.

Acabou.
As preocupações,
os ratinhos a remoerem-me
a consciência,
Sim, agora,
posso descansar.

Tenho futuro garantido

pelo menos, até início
de Janeiro.


Podemos todos dormir descansados.
(Por agora.)

sábado, 19 de setembro de 2009

O fim do começo

0
O senhor Quintiliano Gravato é daquele tipo de pessoas que gostam de tudo no devido lugar, limpo, asseado, organizado. Porém, isso não o impediria de pegar numa pá e ser coveiro, se tal fosse necessário.
O senhor Quintiliano Gravato é daquele tipo de pessoas que espera sempre o melhor de toda a gente. Para ele, não há ninguém neste mundo que possa ser criminoso. Para ele, não há pessoas más. É daquele tipo de pessoas que passa a vida a ter delisuões pelas acções dos outros.
Chegado à sua idade, começa a acreditar que já pode esperar tudo de todos.
Porém, ninguém o preparar para esperar toda aquela situação por parte dos filhos.

Foi até à beira-rio (não vos contei que a minha vila tem um rio?), ver as folhas de outono embaladas no vento, para pousar, suavemente, na superfície rugosa da água.
E suspirou.
Suspirou bastantes vezes.

Chorou um pouco.

E, por fim, adormeceu.

Ainda acordo noites a pensar
no que teria feito se ele nunca
tivesse adormecido ou
se, entretanto, acordasse.

Se ele, por ventura, tivesse aberto os olhos, não veria um simples coveiro, só.
Teria visto uma sombra, uma mulher gentil, vestida de preto, acariciando a corda que eu levava nas mãos.

Era o meu terceiro assassínio
e a Morte já fazia as suas aparições comigo
como se dissesse
Neste momento, já não te deixo sozinho.

Atrás de mim deixo o pendulo de relógio, balançando, marcando compasso.

Dito assim, parece tão poético.
No entanto, acho-o sempre poético.

Era 23 de Novembro.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Num enterro para o meu bolso

0
Para encerrar o caso.
(Honestante, já me aborrece. Eu era tão inexperiente, tão pouco criativo.)

A útlima ideia foi causada pelo que ouvi no funeral do AAA.

UMA CONVERSA
ENTRE MEIA DÚZIA
DE FERIDAS NA TERRA
"Eu lamento imenso o que aconteceu
ao teu filho. Acreditas quando te
digo que eu era contra
contratá-lo?
Por mim, nem tinhamos
seguido com o processo..."

Não precisei de ouvir mais para deduzir algumas coisas.
Sentimentos e...

oh, sim, talvez o pai do assassinado e do assassínio
os conhecesse melhor que os preconceitos
das gentes desta terra.

Parabéns, senhor Quintiliano Gravato.

Mas como será que o senhor iria lidar
com a condenação do seu mais novo?

Prefiri tirar as conclusões por mim mesmo.
E esperar pelo fim do processo e pelo funeral da minha primeira vítima.

Primeiro, inspirar.
Depois, passar à acção.

Afundando mais um pouco

0
Foi um choque, para todos, a descoberta do corpo de Adalberto Abraão.

(Podemos dizer que o da do de Paulino Gravato
o foi apenas nos cabeçalhos dos jornais.
Não nas vozes dos sussurros.)

Era a minha segunda morte.
Desta vez, fora demasiado cuidadoso para que, fosse quem fosse, se deixasse apanhar.
Claro que haveriam investigações, claro que não conduziriam a lado algum.

Mas quem teria dúvidas?

A morte do advogado mais conceituado de toda a região poderia ser um choque, porém, quem mata um irmão, não terá remorsos de matar ou mandar matar outro indivíduo, certo?

(Como o fiz?
É tão simples que
não merece mais
que uma breve passagem:
digamos que a bebida
do senhor Advogado
Adalberto Abraão
tinha um cheirinho.)

(É curioso o observar toda a espécie de plantas que cresce
ao pé de um campo cravado de mortos.)

Por tribunais

0
Isto era o que sabia pelos murmúrios: o Marcelino tinha afirmado que, efectivamente, tinha apanhado um vôo, quando questionado "onde estava no dia 1 de Novembro, entre as 14 e as 16 horas?". Quando ainda não sabia que aquilo de que o acusariam era bem pior do que aquilo a que eu o sujeitara.

À pessoas que não pensam,
coitadas, às vezes é tão fácil
apanhá-las e deitá-las ao chão.

Ficou bastante mal visto, quando a polícia descobriu que ele não havia embarcado. Digamos que se tornou num golpe suspeito.
O carro era mais uma das provas, o sangue que alguém tentara limpar...

Adoro ser cuidadoso.

Adoro a facilidade com que se incrimina alguém.

Um dia soube, por entre rumores,
que o advogado da família era,
enfim, um amigo,

ou seja

alguém da terra

ou seja

alguém cujo funeral
seria encomendado à minha pessoa.

Podem imaginar o quão suspeito seria se esse indivíduo aparecesse morto?
Pobre Marcelino, estava mesmo em maus lençóis.

Porém, tinha uma vantagem de que os outros não gozavam:

Quando morrer,
não será enterrado na vila
do Coveiro.

Provavelmente, foi o que lhe salvou a vida.

Insinuação

0
Na semana que se seguiu, não segui os avanços da polícia.
Era algo perfeitamente inútil para um resultado tão previsível.
Além disso, tinha populares em pequenos sussurros, as velhotas no vão da escada, as mulheres à entrada do cabeleireiro, os putos na escola, fingindo que sabem tudo, contando o que ouvem por casa, os berros dos bêbados na calçada, enfim, os modos de saber algo tão invulgar numa terraa como a minha são praticamente ilimitados. Só é preciso ficar à escuta.

E esperar.
E eu tinha toda a paciência do mundo.

Enquanto esperava o pomposo funeral, porém, mantinha-me inquieto.
Já não tão desesperado, claro.
Mas ainda queria garantir a minha sobrevivência.

As ideias começaram em sonhos,
depois balançavam-se, perante mim,
óbvias, perfeitas, lógicas.

Insinuando, atiçando-me para o
seu aconchego.

Desta vez iria correr tudo bem.
Sorri para as nuvens.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Primeira Vez

0
A primeira vez nunca se esquecem.
É o que dizem.

Uma coisa é certa, nunca hei-de esquecer a minha primeira vez.
Preferia que tivesse sido de outro modo.

A chuva tornou a terra em lama.
Era a primeira vez que abria uma cova sozinho, tenham dó!

Pior era quando nevava.

Mas, com os tempos, habituei-me.
Afinal, era a minha profissão.


Querem saber mais acerca do homem no caminho de terra batida?
Assim seja, eu conto.

O carro não era meu, lógico, nem tenho tal monstruosidade.
Acho que dá para adivinhar a quem pertencia.
(Para os mais distraídos:
não é perfeitamente óbvio?
Pertencia ao potencial assassino.)

Foi algo bastante feio.
Hoje, consigo pensar em tantas mais hipóteses, tão mais limpas, tão mais incriminatórias. Como vos disse, estava, efectivamente, um pouco desesperado.
Ainda tenho alguma réstia de vergonha por falar nisso, vejam só.
Por que acham que estive com tantos rodeios?

Ficou menos um peso, estou mais leve, o pior já passou, acho que posso continuar.

Preparativos principais

0
- Nessa semana é completamente impossível. Tem a certeza que não pode ser noutro dia?
- Não há outro modo. Não aceita, portanto?
- Não, quer dizer, sim, isto é, sim, aceito.

Dito isto, Marcelino voltou para o mesmo lado da rua, exactamente o mesmo de onde tinha vindo.

No meio da estrada,
uma figura encarapuçada,
olhando para o céu
e sorrindo: era eu,
fingindo que era a morte
e que tinha comigo o poder de Deus.

Que fiz eu, perguntam-se?
Bem, por meras palavras, garanti que o potencial assassino de uma das pessoas mais influentes desta vila não irá embarcar naquele avião, nem o vai contar a ninguém.

(Pelo menos, até descobrir que é demasiado tarde.)


Em duas semanas morreram apenas duas pessoas.
Vi-me obrigado a vender um retrato antigo e dois livros autografados, primeira edição.

Não desesperei, a minha profissão torna-nos controlados.
Mas também nos retira uma certa réstia de moralidade, de consciência.


Talvez estivesse um pouco desesperado
para o ter feito como fiz.

Não é muito o meu género, sabem?


Segundo as minhas contas, o dia tinha, por fim, chegado.
Marcelino estaria, supostamente, no seu destino exótico.
O seu irmão mais velho estaria em casa e, às 15 horas e 30 minutos, sairia para o seu habitual passeio.

Já vos disse que não faz nada o meu estilo?
E, em relação às vossas perguntas, não perguntem.

Escondido debaixo das árvores, estava uma espécie de monstro (monstro da pior espécie).
Paulino Gravato só se apercebeu do carro quando estava quase a seu lado.

Tentou fugir, claro.
Claro.

Coveiro tenta trocar as datas.

0
Dia 18 de Outubro.

Rua 23 de Abril

Marcelino Gravato atravessa a estrada
para chegar ao outro lado.

Porém,
não dará mais um passo na direcção
do passeio. Vai parar agora, neste preciso
momento.

Sabem porquê?
Porque eu apareci.

Coveiro Plantando Ideias

0
Ia viver de quê, agora que o meu negócio estava às portas do juízo final?


As pessoas não morriam com frequência suficiente

para que pudesse continuar a ter comida na mesa.

Poderia ir para outro lado, competir contra outros da mesma profissão.
Para quê, se a solução estava tão perto?

Claro que não pensei logo, logo. (Claro que pensei. No fundo, acho que sempre esteve dentro de mim, desde que enterrei o meu primeiro habitante.)
A ideia começou a surgir quando ouvi os rumores.

Primeiro, a esperança.

Mas o que é a esperança
que não estar à espera que tudo
corra como nós preferíamos?

Que é a esperança
que não ela própria
uma espécie de conformismo?

Desculpem, já me estou a adiantar.
Que diziam, então, os rumores?

As pessoas murmuravam pelos cantos, acerca de uma família, daquelas influentes, com casas e terras a perder de vista, aqui da vila, e acerca de um parente afastado,

enfim, coisas de novela.

Ao que parecia, ia haver zanga,
zaragata, poderiam haver mortos.

Era a minha esperança, os serviços fúnebres a ricos são sempre mais pomposos

e rentáveis.


Durate dias segui os passos daquele que tanto apoquentava os habitantes.

Bastava um em falso.

(A espera mata)

O passo em falso aconteceu
numa tarde nada chuvosa,
numa cabine de telefone.

A conversa era acerca de um voo,
num tal dia, tal hora, para tal local.

Queira-me desculpar,
meu senhor, mas
quer-me parecer que não irá a lado algum,
muito menos no tal voo dao tal dia, tal hora.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

23ª mensagem

0
23 te digo, como um nome bonito, 23 é meu 23 somos nós,

23 23 como te digo 23, 23 era meu,agora meu só não pode, não pode só meu ser.

não perdi, só ganhei, mas não sei se sei bem que ganhei, porque o sofrimento também é ganho, nem sempre ganhar é bom,

mas somando tudo parece-me bom, parece-me que, de qualquer modo, ganhei, tu também, ganhámos os dois, não empate, porque ganhámos, porque não é preciso ser só um a ganhar,

às vezes partilha-se. assim deixamos o ganhar só um e ganhamos todos,
não é bonito, não é adorável? este é para se ler depressa, porque o estou a pensar depressa e tento escrever depressa, não quero deixá-la,

abandoná-la outra vez, amo-a, inspiração, inspiração, foge-me entre os dedos, quando me roça só a quero abraçar e dizer-lhe amo-te

mas ela foge, foge, corre esconde, mas isso agora não importa
porque tenho o 23 comigo e o 23 é sempre motivo de inspiração
porque tenho alguém comigo, apesar de agora estar sozinha,

porque estou a libertar-me do pensamento,
porque estou à procura de overdose
d'imaginação, d'escrita,

eu espero, eu espero, mas se paro, desespero,
tenho medo, porque tenho de ir dormir outra vez?
e repeti-lo outra vez?
e outra vez será outra tormenta, mais desespero

oh, como odeio que me repudiem pelo que sou,
pelo que gosto,
como odeio que me encham de etiquetas
"autora", "editora",
eu sou escritora,

eu sou escritora

eu sou escritora
EU SOU ESCRITORA
EU SOU ESCRITORA, OUVIRAM?
EU SOU ESCRITORA
EU SOU ESCRITORA!
EU SOU ESCRITORA!
EU SOU ESCRITORA!
EU SOU ESCRITORA, OUVIRAM?

ESCRITORA.
EU ESCREVO
EU AMO ESCREVER,
E AMO TODAS ESSAS SENSAÇÕES
DESESPERADAS QUE SE NÃO DIZEM
QUE SE CALAM
QUE SE ESCREVEM

Porque só escrevendo, lá chego.
Amo-vos sem escrever,
mas escrevendo,

não fica mais bonito?

(Lindo, adorável.)

Onde.

0
Olha, farta estou, hoje não escrevo nada?

Sincera, honestamente, estou aborrecida.

Mágua, onde estás, Coveiro?
Onde estás, Quebra-Vidas?
Onde estás, Íris?

Onde perdidos recantos existem que não vos vejo
nem me querem dizer
"olá!"

Sabem qual é o problema? Eu sei lalalalalaaala, é pensar no que escrevo quando vou escrever, é o primeiro passo rumo ao desastre de um bonito texto, não é impulso, é reflexão. Não o faças, lembra-te de nunca o fazeres.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Não é giro?

0
Não acham extremamente bonito ir enchendo um blog dedicado aos crimes dos "inocentes" de coisas que adoro e que detesto?

Da minha raiva à humanidade
e simultâneo amor?

Dá que pensar, não acham?
Por que hei-de eu apresentar-me, no meio de todas estas invulgares personagens?
Será que?

Izato. ;)
Durmam bem.

bOAs vindas

0
Olá
Boa Noite
se for o caso
aqui é
só queria
dizer
olá
e que se
querem ler
alguma coisa
de jeito
leiam o
meu
blog, este
ou os
outros,
são fixes
é o que
dizem
mas
podem
estar
a
mentir


s
a
b
e
m

q
u
e

m
a
i
s
?


Estou a pensar que me está a dar uma trabalheira escrever assim.

E que a vocês não
vai custar quase nada.

Boa noite.
Beijinhos e abraços
Amo-vos todos
(uns mais que outros)

Durmam bem
e

b
o
n
s

sonhos.

Di.

Da autora

0
Odeio dormir porque o estado de espírito, a pré-disposição à escrita desaparecem.

Percebem?, é como fazerem um desenho bonito num vidro embaciado e ele desaparecer.

É bastante triste.

Como perder um texto que ficou por guardar.
Como perder uma ideia que ficou por apontar.
Como arrancarem uma folha do meu caderno, que não é "só uma folha",
é um futuro texto.
(É um roubo.)


Depois fica a assombrar-nos, aos cantos,
atormentando-nos a consciência de cada vez que nos lembramos
e questionamos "como seria se não tivesse sido assim?".

É um fantasma.

Se vocês são criativos,
percebem o que quero dizer.

E não precisam de comentar,
podem fazê-lo, se quiserem,
mas sei que, nisto, não estou sozinha.

Porém, como estou condenada às necessidades básicas do ser humano
(o que é perfeitamente injusto, já que não sou um)
vou ter de ir dormir. Parar o impulso, transformá-lo em matéria de sonho.

Gastá-lo em criatividade excessiva
mas o sonho não precisa, já é tão criativo!

Por favor, não mo roubem outra vez.

Adoro Carmen, de Bizet
e Flauta Mágica, de Mozart.

O Blogger

0
O Blogger é extremamente triste.

De dia para dia encontro-lhe os erros que odeio

já repararam o quão estúpido é ver:
1 comentários?


Adoro expressar raiva por palavras.

Crítica aos que fogem

1
É triste, não têm vergonha de não comentar?

São seres ocos desprovidos de opinião?

Digam que odeiam, digam que adoram,
qualquer coisa!

Podem acordar?
Por favor, isto não são horas de fechar os olhos!

Vejam o mundo, não vejam o que vejo,
não corem, não tremam,
não temam.

Mas acordem!!!

Vocês são a vergonha dos
intelectuais deste país!

Vejam o lado positivo:
há pessoas bem mais vergonhosas
neste país e nos outros todos
e eu odeio-os profundamente.

A vocês não.
Não vos odeio, apesar de odiarem o que escrevo.
Não vos odeio, apesar de amarem o que escrevo e eu não.

NOTÍCIA DE ÚLTIMA HORA:
Afinal não vos odeio, queridos leitores.
Amo-vos. Do fundo da minha existência.

O Coveiro tenta reencontrar-se

0
De volta o vosso caro amigo- aposto que deixei saudades.
Onde ia?

Perdi-me nas tretas da Íris.

Nunca a vi nem nunca a irei ver.
Não sei quem ela é,
não se esqueçam, somos os

culpados

e vimos de todo o lado.
Não coexistimos no mesmo espaço.

É que sabem, descendemos da mesma autora
(que, já agora, adora fazer auto-referências)
(o que já devem ter reparado)

e ela sabem como construir as histórias, mas por vezes perde-se.

Onde ia?
Perdi-me, Íris, malvada Íris!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Interlúdio

1
Ficou bonito, não ficou?

Eu gostei, sincera e honestamente.

Não se preocupem, o tratado completo
sobre a beleza há-de chegar, um dia.

Não queriam toda a profundidade
de uma vez só, pois não?

Queriam?
Tenham dó, nem a personalidade da personagem
está totalmente criada.

Querem-no?
Façam vocês mesmos.

Livrem-se de questionar os meus métodos.

Ou, como eu digo:

Façam-no,
estou-me nas tintas.

A autora.
autora

Mudança de ares

0
Os rumores iniciados por mim confirmam-se:

Mudança de personagem.

Gosto muito do Coveiro, é a minha personagem preferida.
Quer dizer, segunda.

Porém, esta mudança é essencial-eu preciso dela e o blog precisa dela.
Personagem não tão fútil nem oca como pode parecer, simplesmente, é preciso dar-lhe tempo para a conhecer melhor.

Lamento a mim mesma, mas criei-a e ela agora não me perdoaria se não a incluísse.

ÚLTIMO CONSELHO
Nunca descartem ninguém.
Há um assassino em
cada um de nós.

domingo, 13 de setembro de 2009

A vila do Coveiro parte 2

0
Que dias felizes foram esses,
Enterrando pessoas todos os dias -
Alegres falecidos ao encontro da terra.


Então, as obras começaram.

Com todas as precauções, não houve margem para acidentes fatais.
Bem no centro da vila.

Passaram-se anos até que o meu maior pesadelo abrisse as portas.

Já adivinharam?
As pessoas falaram.
Falaram muito.
Porém, só no fim do mês me apercebi da crueldade.
Do insulto que aquele edifício representava para mim.
Foi nessa altura que fui totalmente esquecido e ignorado.
Era como um fantasma, uma mancha do passado.
O meu pesadelo era o sonho mais esperado de muitos.
Era um centro de saúde, repleto de doutores de bata branca, os milagreiros que prolongavam a vida daqueles que já estavam às portas da minha casa. Uma ofensa sem pedido de desculpas.
Desculpa estragar o teu negócio, António.
É pelo bem das pessoas.
Pois a mim não me interessa que as pessoas estejam vivas ou mortas.
Honestamente, qual é a diferença?
Não é um pouco contra o nosso ser tentar emendar o destino que a Natureza nos reserva?
Não é uma ofensa à própria morte?
Não gostamos de ti!
Vai-te embora!
Nas primeiras semanas, começou a esmorecer, como uma folha de verão a mudar de cor no outono. Cada vez mais, até cair.
Foi quando associei ao centro de saúde.
Não é curioso?
Para mim é como se morresse,
porém, nunca a minha vila
esteve tão viva.
Comecei a preparar as pás para enterrar o meu negócio.
Sombra do que já era.
Mas ia viver de quê?

Informação importante

0
ESTE BLOG TEM BASE NUMA CITAÇÃO DA ESCRITORA:

"Os escritores querem falar sem medo,
porque são escritores e não autores."
Quem tiver dúvidas ou preconceitos, pode comentar. Os outros também.
Disse pouco, não disse?
COMENTÁRIO AO ANTERIORMENTE
MENCIONADO
Errado, disse muito, mas por poucas palavras.
Só quero que entendam que, por autores,
eu queria dizer os autores de livros publicados.

Tenham um bom dia.
(Por que estou a ser tão simpática?
Eu conto: não faço ideia de como vou continuar
estas histórias. Gostaria de sugestões:
mantemo-nos a par da história do
Coveiro ou mudamos para outra
personagem?)

sábado, 12 de setembro de 2009

A vila do Coveiro antes do incidente

0
Tudo bem, deste à pouco?
Não arranjaram por aí emprego para mim, entretanto, não?


Nunca é tarde relembrar:


O meu nome é António Fialho.
Sou coveiro de profissão.

Peço desculpa por insistir, mas talvez um dia compreendam e dêem graças por o fazer.
Isto é, se ainda se aguentarem por aí.

A minha vila era regular.
As mortes, sabem
Normalmente, morria uma por dia
Mais ou menos
Pode parecer triste, mas
Os dias eram mais alegres quando:

havia acidentes
ou
uma epidemia alastrava.
O serviço de urgência era bastante decifiente, o que também era agradável.

Pela autora

0
Não, esta história não é acerca de quem sou ou do que faço ou como faço ou como acho.


Para isso, podem ir ao escritos dispersos, que são textos pela ordem por que escrevo.

Se querem críticas directas à sociedade em geral, têm as crónicas do lodaçal, que, de momento, estão estagnadas.

Se apreciam um pouco de loucura, podem exprimentar ler Edna Berry, apesar de não ter continuado - tenho de acabar, primeiro, a história do pai dela, Edgar Perry - esse sim, o meu louco pseudo-esquizofrénico preferido.


Este blog é para os crimes que os declarados inocentes cometem.
Surgem na minha imaginação.

E quis enunciá-los e à sua história.
Quis escrever história, conto, não só escritos dispersos.


Porém, tenho falado sobre tudo.
Não só sobre as personagens, mas também sobre o que eu penso ou o que faço ou como faço.
Não estava planeado, aconteceu, com a criação do blog.

Foi um impulso.

"Uma vontade incontrolada."

Não me julguem por continuar a ser fiel ao principal objectivo do blog.
Aliás, façam-no, estou-me nas tintas.

Sim, este é um blog de criminosos que criei.
Também os sinto neste impulso.

Este blog está a tornar-se inesperado para mim própria.


Sim, isto é uma salada do real e do imaginário, de mim e das minhas personagens.
Eu sei.
Não é adorável?

Começa O Coveiro a sua história

0
Ainda se lembram de quem sou?

Olá.
O meu nome é António Fialho.
Sou coveiro de profissão.

Tínhamos combinado que vos iria contar a minha história?
Com certeza.

Estão prontos?
(Caso a resposta a esta afirmação seja negativa, pode fechar a janela ou esperar por outras personagens.)

A minha história começa num lugar muito longe deste onde estou, sim, muito longe.

Sim, eu sei.

Previsível, não é?


Vão manter-se por aí ou já desistiram de tédio?


Pela minha parte, continuo.

Lugar muito distante, certo? Foi na vila onde nasci e cresci.
A terra que me viu crescer. Onde aprendi a ler, a somar, a subtrair.

Ahahah

Aborrecido, não acham? Aposto que se estão a questionar por que não desistiram à pouco, quando o sugeri.

Não vos receio, porém. Repito.
Quero lá saber que vos lembre a história dos vossos avós.

E isto, lembra? Foi onde aprendi com o meu mestre a ser coveiro. Foi onde aperfeiçoei a minha arte até um ponto a que o meu mestre não chegara.
Desenvolvi todo o serviço funerário da região.

Não gostariam que vos contasse, agora, o modo como escolho o local, decido a profundidade, preparo o respeitoso defunto, encomendo o caixão, preparo os serviços, chamo o padre, estou atento, enfeito todos os festejos?

Cada passo meu?

Pois bem, se gostam, têm bom remédio:
sigam a minha profissão.


Mais interessante?
Acham mesmo?
Dêem graças por não me conhecerem.

No geral, as pessoas não me ligavam, excepto quando precisavam dos meus serviços.
Nunca me incomodou.
Porém, o desenvolvimento da minha arte

O que acham que vou dizer?
Que compreendia melhor os mortos que os vivos?
Que me dou melhor com os pedaços de carne em decomposição que com a frescura andante?

Ahahah!

Continuo, o desenvolvimento da minha arte fez-me reparar nas pessoas, todos os comportamentos, reacções. No início, só conseguia absorver o luto, mas, com o passar do tempo, cada emoção era clara, distinta.

Conseguia saber exactamente em que pensavam.

Já imaginaram?

Sim, estou a exagerar.
Não conseguia saber tudo.
Aliás, não conseguia saber mais que a maioria das pessoas.
No entanto, já é mais do que vocês esperavam, certo?

Aprendi a ver relações.
Quem trai quem, quem bate a quem.

Por vezes, via mais claramente que se fosse o individuo em questão.

E ouvia os sussurros.
Aqueles ditos que dizem mais que as palavras normalmente ditas.

Tal como os gritos.


Nunca me interessei por tais assuntos. Apenas os fixava. Do mesmo modo que fixava os olhos vidrados do morto.
Eram-me totalmente distantes.

Aqui está.
A apresentação da minha história. Estou só no início, claramente.

Estou curioso. Vão manter-se comigo?
Terei todo o gosto.

Outra nota (12-09-09)

0
Questionem-se, à vontade, mas estou aqui para esclarecer:

Para quem não leu o livro A Rapariga que Roubava Livros, passo a explicar
na mesma história, existe uma dada ligação com a palavra "coveiro".

Penso que agora compreenderão a pergunta que não está colocada, mas à qual eu aqui respondo.

Não, a personagem "O Coveiro" não foi baseada nem influênciada nem um pouco pela história de Markus Zusak. Na verdade, é uma ideia que tive à cerca de dois anos, mas só mais recentemente começou a ter forma.

Li o livro citado em Agosto deste ano.

Coincidência curiosa, não vos parece?
Pois lembrei-me dela enquanto escrevia e não queria mal entendidos.

Já há algum tempo que dados autores me têm vindo a roubar ideias, por exemplo


NOTA CURIOSA ACERCA DA
AUTORA DESTE BLOG

Estive para escrever um livro acerca
de um serial killer que só matava
os maus. Chamava-se DEXTER, como
o personagem de uns desenhos
animados que via quando era mais nova.

Como já referi, não tenho problemas em continuar essas ideias, apesar de me terem sido "roubadas" e proclamadas aos ventos.
Só não quero mal entendidos por coisas tão mesquinhas - não têm mais com que se preocupar?

Nota (12-09-09)

0
Enquanto relia, não pude deixar de notar

com muita pena minha, este estilo de escrita não é originalmente meu

iria lá chegar, com o tempo, mas, apesar de não ter problemas em escrever acerca de ideias que me "roubaram",

não seria capaz de roubar o mérito a quem me inspirou a escrever assim,

esta coisa de fazer parágrafos a mais:

o meu agradecimento a MARKUS ZUSAK, o autor do meu preferido A Rapariga Que Roubava Livros, no original The Book Thief.

Apresentando O Coveiro

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Ainda é muito cedo para dizer olá.

Porém, assim vos saúdo.

Olá.
O meu nome é António Fialho.
Sou coveiro de profissão.

Este é o meu cartão, ao vosso dispor.


Talvez alguém vos tenha dito para não se dar com pessoas como eu.
Oiçam o que vos digo - há pessoas com superstição excessiva.

Imaginem um mundo sem coveiros:
vamos virar os pensamentos de pernas para o ar
como se livrariam de todos os corpos?
deixa-los-iam apodrecer aos cantos?

já consideraram o cheiro que o mundo teria?

então, queima-los-iam?

vejo bem que nunca passaram uma noite a sentir o bafo de carne esurricada.


Deixem-me que lhes diga: o mundo sem coveiros não seria o mesmo. Nós somos os corajosos soldados que levam o defunto à sua última morada.

Saúdem-nos, em vez de nos repudiarem.

Felicitações, espero que aperciem a minha história.
Cuidem que pode chocar algumas mentes.
Os mais novos podem ter pesadelos.

Sejam pobres, não terão que me recear.

Juro-lhes, sou boa pessoa.


Simplesmente, esta profissão suga-nos certos valores e certos cuidados
e começa a tornar-se difícil de distinguir

um vivo

de um morto.

Antes de começar

Odeio isto: o blog não é um livro - os posts mais antigos aparecem em último, os mais recentes em primeiro.

É como ler de trás para a frente!
Recomendo ir ao arquivo para ler por ordem.

(Se alguém souber se dá para pôr ao contrário, avise s.f.f.)