Levantei-me e fui dar uma volta.
A neve era fresca, no chão.
Faziam 34 anos que não nevava.
Um bom presságio, não concordam?
Passeava-me pelas ruas, brancas, puras, como a morte - sim, como a morte - a vida é que é suja e depois ainda deixa aqueles corpos todos para trás-, observando as gentes passando por mim
Como eram calmas,
como me cumprimentavam sem me ver
sem verem o brilho dos meus olhos.
Nenhum de nós poderia
ser capaz de prever a
mudança que se iria dar,
muito menos eu.
Afinal, fui eu que fui
surpreso, não eles.
Eles limitaram-se a agir.
Duas senhoras conversam,
isto é,
murmuram.
Interessante.
- Parece que o filho do talhante
anda todo entusiasmado com um
daqueles filmes que nunca mais
acabam, e olha que não é um
filme nada bonito, nada bonito mesmo.
- Então, não há-de ser nada, sobre
que é o filme, afinal?
- Olha, não sei quem inventou
história tão horrenda, ao
que parece é de um assassino
que trabalha na polícia de dia
e que mata pessoas à noite
e o que é pior é que ele
é o herói da história.
- Que horror! Como é que alguém pode
gostar de uma coisa dessas?
-Não sei que te diga, este
mundo está todo às avessas.
Aqui estava ela.
O murmúrio da sorte, sussurrado ao meu ouvido.
Podia ser mais uma oportunidade, mas tinha de saber mais.
Tinha de saber mais, mas no fundo, já sabia que seria mais um pretexto para poder ganhar uns trocos.
Olhei para as pegadas na neve
e pareciam-me uma cara sorridente.
Um bom presságio,
não concordam?

