sábado, 12 de setembro de 2009

Começa O Coveiro a sua história

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Ainda se lembram de quem sou?

Olá.
O meu nome é António Fialho.
Sou coveiro de profissão.

Tínhamos combinado que vos iria contar a minha história?
Com certeza.

Estão prontos?
(Caso a resposta a esta afirmação seja negativa, pode fechar a janela ou esperar por outras personagens.)

A minha história começa num lugar muito longe deste onde estou, sim, muito longe.

Sim, eu sei.

Previsível, não é?


Vão manter-se por aí ou já desistiram de tédio?


Pela minha parte, continuo.

Lugar muito distante, certo? Foi na vila onde nasci e cresci.
A terra que me viu crescer. Onde aprendi a ler, a somar, a subtrair.

Ahahah

Aborrecido, não acham? Aposto que se estão a questionar por que não desistiram à pouco, quando o sugeri.

Não vos receio, porém. Repito.
Quero lá saber que vos lembre a história dos vossos avós.

E isto, lembra? Foi onde aprendi com o meu mestre a ser coveiro. Foi onde aperfeiçoei a minha arte até um ponto a que o meu mestre não chegara.
Desenvolvi todo o serviço funerário da região.

Não gostariam que vos contasse, agora, o modo como escolho o local, decido a profundidade, preparo o respeitoso defunto, encomendo o caixão, preparo os serviços, chamo o padre, estou atento, enfeito todos os festejos?

Cada passo meu?

Pois bem, se gostam, têm bom remédio:
sigam a minha profissão.


Mais interessante?
Acham mesmo?
Dêem graças por não me conhecerem.

No geral, as pessoas não me ligavam, excepto quando precisavam dos meus serviços.
Nunca me incomodou.
Porém, o desenvolvimento da minha arte

O que acham que vou dizer?
Que compreendia melhor os mortos que os vivos?
Que me dou melhor com os pedaços de carne em decomposição que com a frescura andante?

Ahahah!

Continuo, o desenvolvimento da minha arte fez-me reparar nas pessoas, todos os comportamentos, reacções. No início, só conseguia absorver o luto, mas, com o passar do tempo, cada emoção era clara, distinta.

Conseguia saber exactamente em que pensavam.

Já imaginaram?

Sim, estou a exagerar.
Não conseguia saber tudo.
Aliás, não conseguia saber mais que a maioria das pessoas.
No entanto, já é mais do que vocês esperavam, certo?

Aprendi a ver relações.
Quem trai quem, quem bate a quem.

Por vezes, via mais claramente que se fosse o individuo em questão.

E ouvia os sussurros.
Aqueles ditos que dizem mais que as palavras normalmente ditas.

Tal como os gritos.


Nunca me interessei por tais assuntos. Apenas os fixava. Do mesmo modo que fixava os olhos vidrados do morto.
Eram-me totalmente distantes.

Aqui está.
A apresentação da minha história. Estou só no início, claramente.

Estou curioso. Vão manter-se comigo?
Terei todo o gosto.

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Antes de começar

Odeio isto: o blog não é um livro - os posts mais antigos aparecem em último, os mais recentes em primeiro.

É como ler de trás para a frente!
Recomendo ir ao arquivo para ler por ordem.

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