segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Genuína Primeira Vez

0
Fechei a porta.
Era ele e eu, agora.

Era eu e ele.

E, evidentemente, os utensílios de cozinha do talhante mais bem sucedido da região.
Era noite, mas não estava escuro. O luar entrava pela janela e banhava o corpo estendido na mesa.
Era eu e ele, ele e eu, agora.
Ele dormia e nunca havia de chegar a acordar.
A menos que eu cometesse algum erro.

Numa terra pacata
como esta, ninguém tinha
larga margem para cometer
grandes crimes.
Até aquele ponto,
pelo menos.

Por isso, ele não merecia a tortura de estar acordado e lúcido quando lhe esventrassem a vida.
O luar era lindo, a neve, lá fora, branca, o corpo, lá dentro, branco, como que a palidez da morte já se tivesse debruçado sobre ele.
Era noite e estava frio.
Era eu e ele, agora.

Fechei os olhos.

Estava pronto.

Peguei no que a polícia, mais tarde, classificaria como arma branca. Bastante apropriado à situação. Todo aquele cenário era branco, toda a morte seria branca, o asseio seria brancura, tudo puro e branco.
Diante de mim, a lâmina reluzente.
Na minha mão, ao meu comando.
Pronta.

Diante de mim, os olhos fechados que não mais se iriam abrir. Diante de mim, o corpo pálido, mas ainda vivo, ainda quente.
Na minha pele, o cabo frio, frio como tudo à minha volta, como que ansiando, como que implorando para que eu cessasse aquela desnecessária fonte de calor.
Apesar de ser a quarta morte, apesar de nunca antes ter hesitado, apesar de nunca antes ter vacilado,
parei,
no instante que precedia o contacto fatal,
parei,
porque sentia algo
a percorrer-me as entranhas
de cima a baixo,
parei e,
pela primeira vez
na minha vida,
senti,
senti com toda a intensidade
e deixei-me saborear
aquele momento.

Por fim, incapaz de me conter, o primeiro corte, cuidadosamente executado.
Uma onda de frio, um arrepio pela espinha, as minhas mãos deixaram-se tremer.
Não tive dúvidas do quão artístico era aquele momento.

No lugar onde a lâmina encontrara a carne, espelhado contra branco, um fio. mínimo. cor de sangue.
Os meus joelhos falharam e deixei-me cair. Deixei-me cair, incapaz de mover os olhos daquele quadro.
Deixei-me a contemplar o sublime contraste.
Uma gota, como uma lágrima, deixando um leve traço atrás de si.
A minha respiração acelerava.
Sentia uma dor no peito, mas algo me dizia que era uma dor boa.
Sorri e fechei os olhos.
Quando os reabri, recolhi aquela primogénita gota entre dois pedaços de vidro.

Soube, nessa noite,
que aquela fora a verdadeira
primeira vez.

Nunca antes houvera qualquer toque de personalidade. E fora sempre com um intermédio, um carro, um líquido, uma corda.
Agora, havia tanto mais.
Havia organização, ordem.
Havia frio, havia branco.
Havia sangue.
Havia calma.
Noutras ocasiões, sentira a Morte comigo, dando uma mãozinha.
Não hoje.
Hoje, havia eu. E ele.
Enterrei a lâmina noutro ponto.
Mais tremores e arrepios.
E um sorriso.
Tinha, por fim, encontrado-me.
Eis eu, verdadeiro.

Arquitectando os alicerces do plano perfeito

0
Em sonhos, via-os, perfeitos, à minha frente. Os traços de um novo plano.
Tencionava fazer aquilo que sempre todos dizem que irá acontecer com as ideias que aparecem nestes livros. Iria tornar, meticulosamente, o fanatismo de Martim Gavina numa realidade. Durante algum tempo, não muito, apenas o suficiente para sobreviver outros dois meses, seria o Dexter que assombraria os cidadãos. Seria ligeiramente mais descuidado, os cadáveres teriam de ser encontrados, para que eu tivesse o que enterrar. De resto, havia de imitar todos os passos do meu novo serial killer preferido.

Agora que pensava nisso,
eu mesmo começava a poder
fazer parte daquela categoria.

Devolvi os livros à biblioteca municipal da povoação vizinha (não quis que me vissem com eles aqui, atrair as atenções está fora de questão) quando achei já estar pronto para prescindir deles. A verdade é que, entre ele e eu, existia um número incontável de semelhanças, ambos cuidadosos, necessitando do assassínio para a nossa sobrevivência, lidando com a morte diariamente no nosso local de emprego, dando pouco nas vistas, não foi nada difícil entrar na pele do herói do filho do talhante.
Precisava de um local.
Precisava de vítimas. Criminosos locais? Assalto aos registos da polícia.
Precisava de utensílios de cozinha. Estão a brincar? Essa era a mais fácil.
Precisava de rolos de fita cola. Rolos e rolos dela.

Era como planear
uma visita de estudo.
Senti, pela primeira vez,
em muitos anos, aquela
antecipação da véspera
de Natal. Senti-me tão
infantil.

Trabalhei neste caso quatro dias. Chegado o final, tinha três potenciais vítimas em mente.
Com pedaços de caixão fizera a caixa para as lâminas de sangue.

Perfeitamente adequado.

Uma gota de sangue repousaria entre dois rectângulos de vidro, representando a vida roubada ao seu anterior hospedeiro, ou antes, a morte gloriosa e artisticamente recebida. Seria uma oportunidade única para o primeiro contemplado com a minha feliz tentativa de imitação.

Tencionava ser
fiel ao original.
Tencionava fazê-lo
como deve ser.
Eu caso de dúvida,
seguiria os métodos
do personagem do livro,
ao invés do da série televisiva.

Estava pronto.
Estou pronto.
Amanhã, quando o Sol levantar, o novo dia há-de receber-me de braços abertos.
Amanhã, serei o acarinhado defensor, o querido assassíno.
Relaxem, serão apenas cinco vítimas.
Acho eu.
(Achava eu.)

domingo, 27 de setembro de 2009

Conhecendo Dexter

0
Dexter é a encantadora história de alguém que, tal como eu, vive de braço dado com a morte. E, cereja em cima do bolo, Martim Gavina é fanático por ela.

Vocês sabem como são
as pessoas de vilas pequenas
que quase poderiam
ser consideradas aldeias.

Vocês sabem, tão, tão
implicativas com pequenas
coisas, tão preconceituosas,
tão pseudo-escandalizadas,
em êxtase com um
pequeno mexerico.

Vocês sabem, julgam que
sabem tudo, sobre todos,
julgando-os com o que
se diz por aí.

Qualquer um que saia da linha é estranho, é alguém em quem não se pode confiar.

Não é curioso
o modo como as pessoas
se enganam? É tão mais
fácil desconfiar do filho
do talhante, criado no seio
de facas e sangue e carne
cortada, fatiada, que do
simples e calado
coveiro, tão ligado
à igreja, tão perto
de Deus.

Virei a última página do último livro. Na verdade, senti uma dada empatia pelo filho do talhante. Era difícil não gostar de uma história assim. Talvez até mesmo as próprias senhoras cuscas se tornassem fanáticas, se lhe dessem uma oportunidade.
Felizmente para mim, isso não aconteceu.
Aquela oportunidade era minha.
Esta oportunidade é minha.
Fanatismo por um assassino em série aliado à desconfiança preconceituosa baseada em mexericos. Os ingredientes perfeitos.
Perfeitos para, mais uma vez, sair impune.
Perfeitos para a fingida racionalidade e civilização se desmoronarem.
Os ingredientes perfeitos na dosagem certa.
Só faltava eu.

Antes de começar

Odeio isto: o blog não é um livro - os posts mais antigos aparecem em último, os mais recentes em primeiro.

É como ler de trás para a frente!
Recomendo ir ao arquivo para ler por ordem.

(Se alguém souber se dá para pôr ao contrário, avise s.f.f.)