domingo, 13 de setembro de 2009

A vila do Coveiro parte 2

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Que dias felizes foram esses,
Enterrando pessoas todos os dias -
Alegres falecidos ao encontro da terra.


Então, as obras começaram.

Com todas as precauções, não houve margem para acidentes fatais.
Bem no centro da vila.

Passaram-se anos até que o meu maior pesadelo abrisse as portas.

Já adivinharam?
As pessoas falaram.
Falaram muito.
Porém, só no fim do mês me apercebi da crueldade.
Do insulto que aquele edifício representava para mim.
Foi nessa altura que fui totalmente esquecido e ignorado.
Era como um fantasma, uma mancha do passado.
O meu pesadelo era o sonho mais esperado de muitos.
Era um centro de saúde, repleto de doutores de bata branca, os milagreiros que prolongavam a vida daqueles que já estavam às portas da minha casa. Uma ofensa sem pedido de desculpas.
Desculpa estragar o teu negócio, António.
É pelo bem das pessoas.
Pois a mim não me interessa que as pessoas estejam vivas ou mortas.
Honestamente, qual é a diferença?
Não é um pouco contra o nosso ser tentar emendar o destino que a Natureza nos reserva?
Não é uma ofensa à própria morte?
Não gostamos de ti!
Vai-te embora!
Nas primeiras semanas, começou a esmorecer, como uma folha de verão a mudar de cor no outono. Cada vez mais, até cair.
Foi quando associei ao centro de saúde.
Não é curioso?
Para mim é como se morresse,
porém, nunca a minha vila
esteve tão viva.
Comecei a preparar as pás para enterrar o meu negócio.
Sombra do que já era.
Mas ia viver de quê?

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