terça-feira, 13 de outubro de 2009

Não fui eu *-*

0
A tendência piorou.
Parecia uma corrida de que ninguém falava mas todos estavam cientes da sua existência e mais: todos queriam participar.

Era espantoso, estavam ávidos de serem livres e despreocupados como que crianças, esquecer as responsabilidades, as normas, guiarem-se por si mesmos à procura do correcto, moralmente correcto, tão distinto do que o que lhes haviam imposto.

Os telefonemas cessaram.
No princípio, dignavam-se a falar comigo, directamente, para pedir a realização do enterro.

Estive uma semana de febre, mas aquele novo ritmo continuou a depositar corpos às minhas portas, crimes que eu não cometera. corpos amontoados, já ninguém tinha a decência de os arranjar primeiro, a polícia já tinha esquecido, desistido.
O cheiro seria insuportável para quem não estivesse habituado - eu estava, vejam só, e, ainda assim, me incomodava, ligeiramente.
Porém, a fúria dos habitantes parecia crescer ainda mais, incitada por aquele forte fedor a morte e bichos, varejeiras e larvas, como se o primordial, o animalesco de cada um apagasse toda a réstia de racionalidade e de consciência.

Chegaram a passear-se nus.

Acorda o monstro

0
Algo parece rugir nas entranhas deste fim do mundo.

Uma mudança está a dar-se, como que a lagarta já estivesse no casulo.

A pequena vila parece acordar, sedenta.
Sedenta de sangue, sedenta de vingança.

Assaltos, janelas partidas, incêndios.

"Acidentes."

Parecem querer fazer o meu novo trabalho por mim.

Sabem que mais?
Descobri que não gosto
de competição.

Da necessidade material já nada resta

0
Com o passar do tempo, começou a tornar-se num vício. Era de uma beleza extrema levar as almas ao outro mundo.
Ver o fechar dos olhos. «E agora estás... e agora já não.» Sentir o terror de quando os esfaqueava.

Só os deixava acordados,
a sentir, quando o mereciam.
Eu não sou um bicho
sem escrúpulos.

Deitava-me, sentindo-me realizado, passava o serviço fúnebre ansiando o anoitecer.
Deixei a indistinção entre um vivo e um morto. Sim, agora parecia-me tudo tão composto, todas as fases da última passagem...
Esfaqueá-los era o extremo de toda a actividade, era o êxtase, a carne sucumbindo perante a lâmina, o sangue, escorrendo, a calma, a magia, a adrenalina, finalmente, alguma emoção desde que enterro pessoas.

Era tão gratificante,
senti-me, por fim,
vingado dos homens
de bata branca, vingando
a própria morte.

Tanato-maníaco: um vício em desenvolvimento

0
Resolvi entregar-me uma última vez ao anterior pretexto.

Era só um.

Que mal poderia fazer?


Talvez seja assim que se começa...
Só um.
Depois, só mais um.
Só um não faz mal.


Mas o mais um começou a tornar-se simplesmente demasiado.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Bye, Dexter

0
Chegava o quinto, o último da saga "O filho de talhante é fanático por Dexter".

O último capítulo de uma fase de delírio, de profunda empatia comigo mesmo, de paz interior, a primeira vez que vejo algum sentido na minha existência.

E eu, melancólico, hesitando em apagar a última vida.

A última vez.
Por que tem de chegar uma última vez?

Desta vez doía mais que quando abriu o centro dos doutores de batas brancas.

Porque era pessoal, era sentido.
Eu estava apaixonado por aqueles momentos fora de série das noites escuras e vermelhas.

Isso era muito maior que qualquer bem material, que qualquer estúpido emprego, que qualquer absurdo e inútil cêntimo.

Aquele era eu.
Eu verdadeiro.
Eu inteiro.
Eu único.

Tinha demorado tanto tempo a encontrar-me.
Iria perder-me tão cedo?


Com um suspiro, enterrei a faca na garganta do corpo pálido, vendo o sangue calmo, escorrendo fora.

Quarto-escuro-sendo-escuro-em-tons-de-vermelho

0
Mais dois foram arrumados do mesmo modo.

Aquela beleza extrema e compensadora.

As sensações.


O quarto que matei em nome do filho do talhante, porém, teve um tratamento um pouco diferente.

Achei a sua história não nos registos policiais mas num lugar bem mais simples e com tantos mais detalhes, longe de burocracias e de provas válidas em tribunal.

Rumores que o vento traz ao parapeito da minha janela.
São como cheiros de novas oportunidades...

Um novo criminoso
Uma nova morte.


Estava bem acordado.
Viu os meus olhos e o meu sorriso.

E viu mais nada.




Fui bastante mauzinho, fi-lo sofrer o mais que pude. De segundo para segundo uma nova ideia surgia, uma nova ideia antes do golpe final.
Ficou um lindo quadro em tons delicados de vermelho.
O sangue era muito espesso, escorria lentamente.

Jamais outro homem nesta terra se atreverá a bater na esposa e nos miúdos.

Talvez seja uma boa altura para começar a dar pistas à polícia para que os enterros destas pobres vítimas possam ser realizados antes que se esgote o pouco que me resta nos bolsos.

Até já :)

Antes de começar

Odeio isto: o blog não é um livro - os posts mais antigos aparecem em último, os mais recentes em primeiro.

É como ler de trás para a frente!
Recomendo ir ao arquivo para ler por ordem.

(Se alguém souber se dá para pôr ao contrário, avise s.f.f.)