sábado, 19 de setembro de 2009

O fim do começo

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O senhor Quintiliano Gravato é daquele tipo de pessoas que gostam de tudo no devido lugar, limpo, asseado, organizado. Porém, isso não o impediria de pegar numa pá e ser coveiro, se tal fosse necessário.
O senhor Quintiliano Gravato é daquele tipo de pessoas que espera sempre o melhor de toda a gente. Para ele, não há ninguém neste mundo que possa ser criminoso. Para ele, não há pessoas más. É daquele tipo de pessoas que passa a vida a ter delisuões pelas acções dos outros.
Chegado à sua idade, começa a acreditar que já pode esperar tudo de todos.
Porém, ninguém o preparar para esperar toda aquela situação por parte dos filhos.

Foi até à beira-rio (não vos contei que a minha vila tem um rio?), ver as folhas de outono embaladas no vento, para pousar, suavemente, na superfície rugosa da água.
E suspirou.
Suspirou bastantes vezes.

Chorou um pouco.

E, por fim, adormeceu.

Ainda acordo noites a pensar
no que teria feito se ele nunca
tivesse adormecido ou
se, entretanto, acordasse.

Se ele, por ventura, tivesse aberto os olhos, não veria um simples coveiro, só.
Teria visto uma sombra, uma mulher gentil, vestida de preto, acariciando a corda que eu levava nas mãos.

Era o meu terceiro assassínio
e a Morte já fazia as suas aparições comigo
como se dissesse
Neste momento, já não te deixo sozinho.

Atrás de mim deixo o pendulo de relógio, balançando, marcando compasso.

Dito assim, parece tão poético.
No entanto, acho-o sempre poético.

Era 23 de Novembro.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Num enterro para o meu bolso

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Para encerrar o caso.
(Honestante, já me aborrece. Eu era tão inexperiente, tão pouco criativo.)

A útlima ideia foi causada pelo que ouvi no funeral do AAA.

UMA CONVERSA
ENTRE MEIA DÚZIA
DE FERIDAS NA TERRA
"Eu lamento imenso o que aconteceu
ao teu filho. Acreditas quando te
digo que eu era contra
contratá-lo?
Por mim, nem tinhamos
seguido com o processo..."

Não precisei de ouvir mais para deduzir algumas coisas.
Sentimentos e...

oh, sim, talvez o pai do assassinado e do assassínio
os conhecesse melhor que os preconceitos
das gentes desta terra.

Parabéns, senhor Quintiliano Gravato.

Mas como será que o senhor iria lidar
com a condenação do seu mais novo?

Prefiri tirar as conclusões por mim mesmo.
E esperar pelo fim do processo e pelo funeral da minha primeira vítima.

Primeiro, inspirar.
Depois, passar à acção.

Afundando mais um pouco

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Foi um choque, para todos, a descoberta do corpo de Adalberto Abraão.

(Podemos dizer que o da do de Paulino Gravato
o foi apenas nos cabeçalhos dos jornais.
Não nas vozes dos sussurros.)

Era a minha segunda morte.
Desta vez, fora demasiado cuidadoso para que, fosse quem fosse, se deixasse apanhar.
Claro que haveriam investigações, claro que não conduziriam a lado algum.

Mas quem teria dúvidas?

A morte do advogado mais conceituado de toda a região poderia ser um choque, porém, quem mata um irmão, não terá remorsos de matar ou mandar matar outro indivíduo, certo?

(Como o fiz?
É tão simples que
não merece mais
que uma breve passagem:
digamos que a bebida
do senhor Advogado
Adalberto Abraão
tinha um cheirinho.)

(É curioso o observar toda a espécie de plantas que cresce
ao pé de um campo cravado de mortos.)

Por tribunais

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Isto era o que sabia pelos murmúrios: o Marcelino tinha afirmado que, efectivamente, tinha apanhado um vôo, quando questionado "onde estava no dia 1 de Novembro, entre as 14 e as 16 horas?". Quando ainda não sabia que aquilo de que o acusariam era bem pior do que aquilo a que eu o sujeitara.

À pessoas que não pensam,
coitadas, às vezes é tão fácil
apanhá-las e deitá-las ao chão.

Ficou bastante mal visto, quando a polícia descobriu que ele não havia embarcado. Digamos que se tornou num golpe suspeito.
O carro era mais uma das provas, o sangue que alguém tentara limpar...

Adoro ser cuidadoso.

Adoro a facilidade com que se incrimina alguém.

Um dia soube, por entre rumores,
que o advogado da família era,
enfim, um amigo,

ou seja

alguém da terra

ou seja

alguém cujo funeral
seria encomendado à minha pessoa.

Podem imaginar o quão suspeito seria se esse indivíduo aparecesse morto?
Pobre Marcelino, estava mesmo em maus lençóis.

Porém, tinha uma vantagem de que os outros não gozavam:

Quando morrer,
não será enterrado na vila
do Coveiro.

Provavelmente, foi o que lhe salvou a vida.

Insinuação

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Na semana que se seguiu, não segui os avanços da polícia.
Era algo perfeitamente inútil para um resultado tão previsível.
Além disso, tinha populares em pequenos sussurros, as velhotas no vão da escada, as mulheres à entrada do cabeleireiro, os putos na escola, fingindo que sabem tudo, contando o que ouvem por casa, os berros dos bêbados na calçada, enfim, os modos de saber algo tão invulgar numa terraa como a minha são praticamente ilimitados. Só é preciso ficar à escuta.

E esperar.
E eu tinha toda a paciência do mundo.

Enquanto esperava o pomposo funeral, porém, mantinha-me inquieto.
Já não tão desesperado, claro.
Mas ainda queria garantir a minha sobrevivência.

As ideias começaram em sonhos,
depois balançavam-se, perante mim,
óbvias, perfeitas, lógicas.

Insinuando, atiçando-me para o
seu aconchego.

Desta vez iria correr tudo bem.
Sorri para as nuvens.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Primeira Vez

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A primeira vez nunca se esquecem.
É o que dizem.

Uma coisa é certa, nunca hei-de esquecer a minha primeira vez.
Preferia que tivesse sido de outro modo.

A chuva tornou a terra em lama.
Era a primeira vez que abria uma cova sozinho, tenham dó!

Pior era quando nevava.

Mas, com os tempos, habituei-me.
Afinal, era a minha profissão.


Querem saber mais acerca do homem no caminho de terra batida?
Assim seja, eu conto.

O carro não era meu, lógico, nem tenho tal monstruosidade.
Acho que dá para adivinhar a quem pertencia.
(Para os mais distraídos:
não é perfeitamente óbvio?
Pertencia ao potencial assassino.)

Foi algo bastante feio.
Hoje, consigo pensar em tantas mais hipóteses, tão mais limpas, tão mais incriminatórias. Como vos disse, estava, efectivamente, um pouco desesperado.
Ainda tenho alguma réstia de vergonha por falar nisso, vejam só.
Por que acham que estive com tantos rodeios?

Ficou menos um peso, estou mais leve, o pior já passou, acho que posso continuar.

Preparativos principais

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- Nessa semana é completamente impossível. Tem a certeza que não pode ser noutro dia?
- Não há outro modo. Não aceita, portanto?
- Não, quer dizer, sim, isto é, sim, aceito.

Dito isto, Marcelino voltou para o mesmo lado da rua, exactamente o mesmo de onde tinha vindo.

No meio da estrada,
uma figura encarapuçada,
olhando para o céu
e sorrindo: era eu,
fingindo que era a morte
e que tinha comigo o poder de Deus.

Que fiz eu, perguntam-se?
Bem, por meras palavras, garanti que o potencial assassino de uma das pessoas mais influentes desta vila não irá embarcar naquele avião, nem o vai contar a ninguém.

(Pelo menos, até descobrir que é demasiado tarde.)


Em duas semanas morreram apenas duas pessoas.
Vi-me obrigado a vender um retrato antigo e dois livros autografados, primeira edição.

Não desesperei, a minha profissão torna-nos controlados.
Mas também nos retira uma certa réstia de moralidade, de consciência.


Talvez estivesse um pouco desesperado
para o ter feito como fiz.

Não é muito o meu género, sabem?


Segundo as minhas contas, o dia tinha, por fim, chegado.
Marcelino estaria, supostamente, no seu destino exótico.
O seu irmão mais velho estaria em casa e, às 15 horas e 30 minutos, sairia para o seu habitual passeio.

Já vos disse que não faz nada o meu estilo?
E, em relação às vossas perguntas, não perguntem.

Escondido debaixo das árvores, estava uma espécie de monstro (monstro da pior espécie).
Paulino Gravato só se apercebeu do carro quando estava quase a seu lado.

Tentou fugir, claro.
Claro.

Coveiro tenta trocar as datas.

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Dia 18 de Outubro.

Rua 23 de Abril

Marcelino Gravato atravessa a estrada
para chegar ao outro lado.

Porém,
não dará mais um passo na direcção
do passeio. Vai parar agora, neste preciso
momento.

Sabem porquê?
Porque eu apareci.

Coveiro Plantando Ideias

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Ia viver de quê, agora que o meu negócio estava às portas do juízo final?


As pessoas não morriam com frequência suficiente

para que pudesse continuar a ter comida na mesa.

Poderia ir para outro lado, competir contra outros da mesma profissão.
Para quê, se a solução estava tão perto?

Claro que não pensei logo, logo. (Claro que pensei. No fundo, acho que sempre esteve dentro de mim, desde que enterrei o meu primeiro habitante.)
A ideia começou a surgir quando ouvi os rumores.

Primeiro, a esperança.

Mas o que é a esperança
que não estar à espera que tudo
corra como nós preferíamos?

Que é a esperança
que não ela própria
uma espécie de conformismo?

Desculpem, já me estou a adiantar.
Que diziam, então, os rumores?

As pessoas murmuravam pelos cantos, acerca de uma família, daquelas influentes, com casas e terras a perder de vista, aqui da vila, e acerca de um parente afastado,

enfim, coisas de novela.

Ao que parecia, ia haver zanga,
zaragata, poderiam haver mortos.

Era a minha esperança, os serviços fúnebres a ricos são sempre mais pomposos

e rentáveis.


Durate dias segui os passos daquele que tanto apoquentava os habitantes.

Bastava um em falso.

(A espera mata)

O passo em falso aconteceu
numa tarde nada chuvosa,
numa cabine de telefone.

A conversa era acerca de um voo,
num tal dia, tal hora, para tal local.

Queira-me desculpar,
meu senhor, mas
quer-me parecer que não irá a lado algum,
muito menos no tal voo dao tal dia, tal hora.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

23ª mensagem

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23 te digo, como um nome bonito, 23 é meu 23 somos nós,

23 23 como te digo 23, 23 era meu,agora meu só não pode, não pode só meu ser.

não perdi, só ganhei, mas não sei se sei bem que ganhei, porque o sofrimento também é ganho, nem sempre ganhar é bom,

mas somando tudo parece-me bom, parece-me que, de qualquer modo, ganhei, tu também, ganhámos os dois, não empate, porque ganhámos, porque não é preciso ser só um a ganhar,

às vezes partilha-se. assim deixamos o ganhar só um e ganhamos todos,
não é bonito, não é adorável? este é para se ler depressa, porque o estou a pensar depressa e tento escrever depressa, não quero deixá-la,

abandoná-la outra vez, amo-a, inspiração, inspiração, foge-me entre os dedos, quando me roça só a quero abraçar e dizer-lhe amo-te

mas ela foge, foge, corre esconde, mas isso agora não importa
porque tenho o 23 comigo e o 23 é sempre motivo de inspiração
porque tenho alguém comigo, apesar de agora estar sozinha,

porque estou a libertar-me do pensamento,
porque estou à procura de overdose
d'imaginação, d'escrita,

eu espero, eu espero, mas se paro, desespero,
tenho medo, porque tenho de ir dormir outra vez?
e repeti-lo outra vez?
e outra vez será outra tormenta, mais desespero

oh, como odeio que me repudiem pelo que sou,
pelo que gosto,
como odeio que me encham de etiquetas
"autora", "editora",
eu sou escritora,

eu sou escritora

eu sou escritora
EU SOU ESCRITORA
EU SOU ESCRITORA, OUVIRAM?
EU SOU ESCRITORA
EU SOU ESCRITORA!
EU SOU ESCRITORA!
EU SOU ESCRITORA!
EU SOU ESCRITORA, OUVIRAM?

ESCRITORA.
EU ESCREVO
EU AMO ESCREVER,
E AMO TODAS ESSAS SENSAÇÕES
DESESPERADAS QUE SE NÃO DIZEM
QUE SE CALAM
QUE SE ESCREVEM

Porque só escrevendo, lá chego.
Amo-vos sem escrever,
mas escrevendo,

não fica mais bonito?

(Lindo, adorável.)

Onde.

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Olha, farta estou, hoje não escrevo nada?

Sincera, honestamente, estou aborrecida.

Mágua, onde estás, Coveiro?
Onde estás, Quebra-Vidas?
Onde estás, Íris?

Onde perdidos recantos existem que não vos vejo
nem me querem dizer
"olá!"

Sabem qual é o problema? Eu sei lalalalalaaala, é pensar no que escrevo quando vou escrever, é o primeiro passo rumo ao desastre de um bonito texto, não é impulso, é reflexão. Não o faças, lembra-te de nunca o fazeres.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Não é giro?

0
Não acham extremamente bonito ir enchendo um blog dedicado aos crimes dos "inocentes" de coisas que adoro e que detesto?

Da minha raiva à humanidade
e simultâneo amor?

Dá que pensar, não acham?
Por que hei-de eu apresentar-me, no meio de todas estas invulgares personagens?
Será que?

Izato. ;)
Durmam bem.

bOAs vindas

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Olá
Boa Noite
se for o caso
aqui é
só queria
dizer
olá
e que se
querem ler
alguma coisa
de jeito
leiam o
meu
blog, este
ou os
outros,
são fixes
é o que
dizem
mas
podem
estar
a
mentir


s
a
b
e
m

q
u
e

m
a
i
s
?


Estou a pensar que me está a dar uma trabalheira escrever assim.

E que a vocês não
vai custar quase nada.

Boa noite.
Beijinhos e abraços
Amo-vos todos
(uns mais que outros)

Durmam bem
e

b
o
n
s

sonhos.

Di.

Da autora

0
Odeio dormir porque o estado de espírito, a pré-disposição à escrita desaparecem.

Percebem?, é como fazerem um desenho bonito num vidro embaciado e ele desaparecer.

É bastante triste.

Como perder um texto que ficou por guardar.
Como perder uma ideia que ficou por apontar.
Como arrancarem uma folha do meu caderno, que não é "só uma folha",
é um futuro texto.
(É um roubo.)


Depois fica a assombrar-nos, aos cantos,
atormentando-nos a consciência de cada vez que nos lembramos
e questionamos "como seria se não tivesse sido assim?".

É um fantasma.

Se vocês são criativos,
percebem o que quero dizer.

E não precisam de comentar,
podem fazê-lo, se quiserem,
mas sei que, nisto, não estou sozinha.

Porém, como estou condenada às necessidades básicas do ser humano
(o que é perfeitamente injusto, já que não sou um)
vou ter de ir dormir. Parar o impulso, transformá-lo em matéria de sonho.

Gastá-lo em criatividade excessiva
mas o sonho não precisa, já é tão criativo!

Por favor, não mo roubem outra vez.

Adoro Carmen, de Bizet
e Flauta Mágica, de Mozart.

O Blogger

0
O Blogger é extremamente triste.

De dia para dia encontro-lhe os erros que odeio

já repararam o quão estúpido é ver:
1 comentários?


Adoro expressar raiva por palavras.

Crítica aos que fogem

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É triste, não têm vergonha de não comentar?

São seres ocos desprovidos de opinião?

Digam que odeiam, digam que adoram,
qualquer coisa!

Podem acordar?
Por favor, isto não são horas de fechar os olhos!

Vejam o mundo, não vejam o que vejo,
não corem, não tremam,
não temam.

Mas acordem!!!

Vocês são a vergonha dos
intelectuais deste país!

Vejam o lado positivo:
há pessoas bem mais vergonhosas
neste país e nos outros todos
e eu odeio-os profundamente.

A vocês não.
Não vos odeio, apesar de odiarem o que escrevo.
Não vos odeio, apesar de amarem o que escrevo e eu não.

NOTÍCIA DE ÚLTIMA HORA:
Afinal não vos odeio, queridos leitores.
Amo-vos. Do fundo da minha existência.

O Coveiro tenta reencontrar-se

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De volta o vosso caro amigo- aposto que deixei saudades.
Onde ia?

Perdi-me nas tretas da Íris.

Nunca a vi nem nunca a irei ver.
Não sei quem ela é,
não se esqueçam, somos os

culpados

e vimos de todo o lado.
Não coexistimos no mesmo espaço.

É que sabem, descendemos da mesma autora
(que, já agora, adora fazer auto-referências)
(o que já devem ter reparado)

e ela sabem como construir as histórias, mas por vezes perde-se.

Onde ia?
Perdi-me, Íris, malvada Íris!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Interlúdio

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Ficou bonito, não ficou?

Eu gostei, sincera e honestamente.

Não se preocupem, o tratado completo
sobre a beleza há-de chegar, um dia.

Não queriam toda a profundidade
de uma vez só, pois não?

Queriam?
Tenham dó, nem a personalidade da personagem
está totalmente criada.

Querem-no?
Façam vocês mesmos.

Livrem-se de questionar os meus métodos.

Ou, como eu digo:

Façam-no,
estou-me nas tintas.

A autora.
autora

Mudança de ares

0
Os rumores iniciados por mim confirmam-se:

Mudança de personagem.

Gosto muito do Coveiro, é a minha personagem preferida.
Quer dizer, segunda.

Porém, esta mudança é essencial-eu preciso dela e o blog precisa dela.
Personagem não tão fútil nem oca como pode parecer, simplesmente, é preciso dar-lhe tempo para a conhecer melhor.

Lamento a mim mesma, mas criei-a e ela agora não me perdoaria se não a incluísse.

ÚLTIMO CONSELHO
Nunca descartem ninguém.
Há um assassino em
cada um de nós.

domingo, 13 de setembro de 2009

A vila do Coveiro parte 2

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Que dias felizes foram esses,
Enterrando pessoas todos os dias -
Alegres falecidos ao encontro da terra.


Então, as obras começaram.

Com todas as precauções, não houve margem para acidentes fatais.
Bem no centro da vila.

Passaram-se anos até que o meu maior pesadelo abrisse as portas.

Já adivinharam?
As pessoas falaram.
Falaram muito.
Porém, só no fim do mês me apercebi da crueldade.
Do insulto que aquele edifício representava para mim.
Foi nessa altura que fui totalmente esquecido e ignorado.
Era como um fantasma, uma mancha do passado.
O meu pesadelo era o sonho mais esperado de muitos.
Era um centro de saúde, repleto de doutores de bata branca, os milagreiros que prolongavam a vida daqueles que já estavam às portas da minha casa. Uma ofensa sem pedido de desculpas.
Desculpa estragar o teu negócio, António.
É pelo bem das pessoas.
Pois a mim não me interessa que as pessoas estejam vivas ou mortas.
Honestamente, qual é a diferença?
Não é um pouco contra o nosso ser tentar emendar o destino que a Natureza nos reserva?
Não é uma ofensa à própria morte?
Não gostamos de ti!
Vai-te embora!
Nas primeiras semanas, começou a esmorecer, como uma folha de verão a mudar de cor no outono. Cada vez mais, até cair.
Foi quando associei ao centro de saúde.
Não é curioso?
Para mim é como se morresse,
porém, nunca a minha vila
esteve tão viva.
Comecei a preparar as pás para enterrar o meu negócio.
Sombra do que já era.
Mas ia viver de quê?

Informação importante

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ESTE BLOG TEM BASE NUMA CITAÇÃO DA ESCRITORA:

"Os escritores querem falar sem medo,
porque são escritores e não autores."
Quem tiver dúvidas ou preconceitos, pode comentar. Os outros também.
Disse pouco, não disse?
COMENTÁRIO AO ANTERIORMENTE
MENCIONADO
Errado, disse muito, mas por poucas palavras.
Só quero que entendam que, por autores,
eu queria dizer os autores de livros publicados.

Tenham um bom dia.
(Por que estou a ser tão simpática?
Eu conto: não faço ideia de como vou continuar
estas histórias. Gostaria de sugestões:
mantemo-nos a par da história do
Coveiro ou mudamos para outra
personagem?)

Antes de começar

Odeio isto: o blog não é um livro - os posts mais antigos aparecem em último, os mais recentes em primeiro.

É como ler de trás para a frente!
Recomendo ir ao arquivo para ler por ordem.

(Se alguém souber se dá para pôr ao contrário, avise s.f.f.)