O senhor Quintiliano Gravato é daquele tipo de pessoas que gostam de tudo no devido lugar, limpo, asseado, organizado. Porém, isso não o impediria de pegar numa pá e ser coveiro, se tal fosse necessário.
O senhor Quintiliano Gravato é daquele tipo de pessoas que espera sempre o melhor de toda a gente. Para ele, não há ninguém neste mundo que possa ser criminoso. Para ele, não há pessoas más. É daquele tipo de pessoas que passa a vida a ter delisuões pelas acções dos outros.
Chegado à sua idade, começa a acreditar que já pode esperar tudo de todos.
Porém, ninguém o preparar para esperar toda aquela situação por parte dos filhos.
Foi até à beira-rio (não vos contei que a minha vila tem um rio?), ver as folhas de outono embaladas no vento, para pousar, suavemente, na superfície rugosa da água.
E suspirou.
Suspirou bastantes vezes.
Chorou um pouco.
E, por fim, adormeceu.
Ainda acordo noites a pensar
no que teria feito se ele nunca
tivesse adormecido ou
se, entretanto, acordasse.
Se ele, por ventura, tivesse aberto os olhos, não veria um simples coveiro, só.
Teria visto uma sombra, uma mulher gentil, vestida de preto, acariciando a corda que eu levava nas mãos.
Era o meu terceiro assassínio
e a Morte já fazia as suas aparições comigo
como se dissesse
Neste momento, já não te deixo sozinho.
Atrás de mim deixo o pendulo de relógio, balançando, marcando compasso.
Dito assim, parece tão poético.
No entanto, acho-o sempre poético.
Era 23 de Novembro.

