As buzinas, as bandeiras, as músicas, os megafones, o tempo de antena. Lembram a auto-proclamação de um circo de terceira categoria.
Cartazes, autocolantes, grandes placards nas ruas, impedindo-nos de olhar para a paisagem.
Os sorrisos, tão falsos quanto as suas palavras.
Tudo tão irritante! Não é de admirar que tenha perdido o auto-controlo.
Portei-me tão bem até aqui. Só eu sei o quão doloroso foi concentrar-me, meramente, nas minhas necessidades materiais, a fim de não matar mais ninguém. Cada dia era mais difícil, tranquei-me e andei às voltas, a bater nas paredes. Porém, consegui controlar o impulso.
E de que modo me haviam recompensado? Com aquele colossal insulto à sanidade mental de cada um.
Claro que respondi à altura.
Provavelmente, até souberam. Foi moda nos noticiários, por algum tempo.
De um tal candidato que matou a tiro o marido da candidata do outro partido.
Como é óbvio, não dei tiro algum.
Eu silencio, não faço ainda mais barulho. Nem gosto de mortes violentas, de explosões de pessoas, ainda para mais deixando lixo no interior do corpo.
Gosto de asseio e de organização.
E de sair impune.
Ninguém teria dúvidas de que o tiro fora fatal.
Ninguém perderia uma segunda vez à procura de vestígios de veneno, que, pela hora em que o corpo fosse descoberto, já teria desaparecido.
Tudo planeado à perfeição, de modo a que até o suspeito principal acreditava ter sido o assassino.
Se continuarem comigo, contar-vos-ei os detalhes.


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